A história nos conta sobre as ações políticas quetransformaram as sociedades desde o início dos tempos, porém, muitas vezes é difícil compreender como essas ações políticas refletem no cotidiano das pessoas. A vida privada é um reflexo da vida pública, mas muitas vezes a história que nos é passada no colégio não dá ênfase a essa questão, o que pode ser uma das causas do desinteresse de alguns alunos sobre essa disciplina; e desinteresse pela própria política. Quando a história é passada através de uma linguagem mais próxima de nossa realidade, isso facilita a compreensão e aumenta o interesse.
No filme “Adeus Lênin” é justamente esse o olhar histórico escolhido pelo diretor Wolfgang Becker, o do cotidiano da população da Alemanha Oriental antes e depois da queda do muro de Berlim, ou seja, como a população foi afetada com a entrada no capitalismo em suas vidas.
No filme, Christine Kerner, mãe de Alex Kerner é uma mulher que, após a fuga do marido para o lado Ocidental praticamente se casa com sua Pátria socialista, e quando vê seu filho em um protesto a favor da abertura da fronteira de seu país com a Alemanha Ocidental, tem um ataque cardíaco e entra em coma durante 8 meses. No tempo em coma, ela perde grandes momentos que ocorrem em seu país, entre eles, a queda do muro de Berlim, unificando oficialmente as duas Alemanhas. Quando Christine sai do coma, e o médico avisa à família sobre o seu estado delicado de saúde, aonde não poderia passar por fortes emoções, Alex transforma a vida da família, e faz renascer novamente a Alemanha Oriental dentro de seu apartamento. Todo o cotidiano da família, pelo menos na presença de Christine, precisa voltar no tempo e ignorar a presença capitalista, superando os problemas, como a falta dos produtos nacionais que prevaleciam antes da entrada de marcas estrangeiras no país, a entrada de novas pessoas, novas vestimentas, e o fantástico mercado de variedades que o capitalismo trás a uma sociedade, Alex consegue emprego como instalador de TVs a cabo, e sua irmã como atendente do Burger King, mostrando-se completamente inseridos agora na Alemanha Ocidental a qual ouviam desde criança, e fica cada vez mais difícil omitir a diversidade comercial e cultural a que se encontram no momento. No decorrer do filme inteiro, Alex tenta fazer com que a unificação das Alemanhas não cause uma reação nervosa em sua mãe, que corria risco de vida, através de produções de jornais com notícias antigas e a constante busca por produtos da já esquecida Alemanha Oriental, e declara que “de uma hora para outra as suas lojas pareciam um paraíso colorido de produtos”, tentando construir essa história da forma como sua mãe gostaria que tivesse acontecido.

Os relatos que de quem esteve presente nesses primeiros momentos de Alemanha unificada, mostram que o lado Ocidental realmente parecia um mundo desconhecido, de modo que percebe-se o conflito de sentimentos que acontecia na cabeça e nos corações dos orientais, confusos entre o sentimento de perca da sua identidade socialista, e o sentimento de liberdade o qual sempre imaginaram, a curiosidade e a esperança de uma vida melhor. Timothy Garton Ash (1990) esteve presente nesses primeiros dias de descobertas, e conta suas experiências em seu livro “Nós, o povo”, contando como as pessoas reagiam nesse primeiro contato com o mundo novo:
“Todos viram as imagens da alegre celebração em Berlim Ocidental, as vastas multidões interrompendo o trânsito na Kürfustendamm, folhas de Sekt espoucando, estranhos abrançando-se em lágrimas – a maior festa de rua da história do mundo.
Sim, foi assim mesmo. Mas não foi só assim. A maior parte dos 2 milhões de berlinenses orientais que, segundo estimativas, inundaram Berlim Ocidental no fim de semana ficou apenas andando pelas ruas em tranqüilos grupos familiares, muitas vezes com bebês em carrinhos. Fizeram filas nos bancos para receber os cem marcos da Alemanha Ocidental ( cerca de 60 dólares americanos ) de “dinheiro de boas vindas”, oferecidos pelo governo da Alemanha Ocidental para os visitantes da Alemanha Oriental, e depois foram, com muita cautela, fazer compras. Em geral compravam uma ou duas coisinhas, talvez umas frutas frescas, um jornal ocidental e brinquedos para as crianças. Então, agarrados às sacolas, voltaram tranquilamente até ao outro lado do muro, pelas cinzentas e desertas de Berlim Oriental, para casa.” – pp 70.
Na Alemanha Oriental, enquanto prevalecia o socialismo através do presidente da RFA (República Federativa Alemã) Honecker,havia a ditadura que proibia a população de atravessar para o lado ocidental, com um esquema de segurança fortíssimo que estava pronto para fuzilar qualquer um que tentasse uma fuga. Estavam presos em seu território aonde não tinham o direito de dizer e fazer o que quisessem, temendo uma repressão do governo; porém alguns ainda se orgulhavam dessa pátria socialista que dava à população o necessário para sua sobrevivência.
Enquanto isso, do lado Ocidental, Gorbatchov, apoiado na RDA (República Democrática Alemã) tentava expandir o domínio dos Estados Unidos e do capitalismo, aonde a desigualdade social prevalecia, contrastando com a grande diversidade de produtos, aonde cada um tinha liberdade total para consumir o quanto quisesse desde que possuísse dinheiro. Esse paraíso do mercado e da liberdade mascarada atraía aqueles que viviam condenados ao socialismo, os prisioneiros de uma pátria que almejavam, sem perceber, tornarem-se prisioneiros do capitalismo.
Com a saída de Honecker do poder, inevitavelmente, as fugas que já se tornavam cada vez mais incontroláveis nas fronteiras dos países vizinhos, já não eram mais necessárias. O muro caíra. Liberdade para todos!

Para explicar a relação entre os dois lados do muro, Jayme Brener explica:
“É preciso sempre falar no eterno fantasma que a Alemanha Ocidental representou para os irmãos do Leste. Depois do Plano Marshall, a Alemanha reconstruiu-se com o apoio norte americano, transformando-se em um colosso. Uma renda per capita de US$12500, inflação de apenas 0,2%, exportação de impressionantes US$ 240 bilhões (1987) e um produto Interno Bruto de US$ 800 bilhões. Essa vitrina do capitalismo europeu era vista como contraponto natural à ditadura stalinista.
Apesar do sucesso relativo da economia alemã oriental (um país com bem menos recursos que o vizinho e população de 16 milhões de habitantes, frente aos 62 milhões do outro lado), qualquer comparação era impossível. Graças à gestão burocrática, à ausência de incentivos para que o trabalhador produzisse mais, o operário oriental tinha uma produtividade de apenas 40% daquela de um colega alemão ocidental. Uma das peças de maior sucesso dos meios de comunicação internacionais durante a revolução da RDA eram as fotos que exibiam, lado a lado, um carrinho Trabant alemão oriental, semelhante aos modelos ocidentais dos anos 50, e os Audi ou Mercedes-Benz, último tipo, saídos das fábricas da Alemanha Ocidental. “– pp. 103/104
Percebe-se que havia uma tensão entre os dois lados do muro, aonde os Orientais queriam conhecer o mundo novo, e os Ocidentais desejavam enriquecer com os novos “turistas”. Hoje, a Alemanha é uma só, e dentro dos moldes capitalistas, apresenta as características naturais desse sistema, como a pobreza e o desemprego. Esse foi o rumo que as coisas tomaram, e cabe a cada um tomar suas próprias conclusões sobre os dois lados da moeda.
Esse filme tem um valor histórico muito importante por que mostra todos os aspectos do capitalismo e do socialismo, fazendo-se perceber nitidamente a verdadeira diferença entre os dois na prática, na vida social da população, os prós e contras de cada um, e tudo isso passado de forma simples e próxima da nossa linguagem, e não na linguagem difícil dos livros e aulas sobre política, aonde somente imaginamos como teria sido viver meio a esses conflitos, porém sem deixar de mostrar os acontecimentos políticos, traçando os principais momentos que levaram à reunificação.
Adeus Lênin é um filme que junta humor, drama e didática, sem ser chato e cansativo; perfeito para explicar o momento o qual se refere dentro da sala de aula, mas que não deixa de ser um ótimo filme para se assistir em um domingo à tarde com a família.
Referências Bibliográficas:
ASH, Timothy Garton. Nós, o povo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
BRENER, Jayme. O leste Europeu. 4 ed. São Paulo: Atual, 1990 (Série História Viva)
Fotos
http://avidaeaobra.wordpress.com/2009/02/11/dicas-culturais-do-dia-161/– acesso em 26/11/2009
cinema.uol.com.br/filmes/adeus-lenin-2003.jhtm – acesso em 26/11/2009
http://avidaeaobra.wordpress.com/2009/02/11/dicas-culturais-do-dia-161/– acesso em 26/11/2009
cinema.uol.com.br/filmes/adeus-lenin-2003.jhtm – acesso em 26/11/2009
http://www.adorocinema.com/filmes/adeus-lenin/ - acesso em 26/11/2009
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